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Nos bastidores da música

Música é uma coisa que encaixa em todos os momentos da vida. Mesmo se você não gostar de escutar nada, seja o que estiver acontecendo, sempre haverá uma canção para representar aquele momento. E não interessa de ano ou de quem é a composição, a escolha desta “trilha sonora” é algo pessoal.

O Engenheiro de Som e Produtor Cris Simões durante um trabalho (Foto: Arquivo pessoal/ VImeo)
O Engenheiro de Som e Produtor Cris Simões durante um trabalho (Foto: Arquivo pessoal/ VImeo)

Talvez por essa proximidade com a afetividade, a música tornou-se um dos mercados que mais faturam no mundo todo. Há atrações musicais que  cobram até US$ 1 milhão para uma única apresentação. Também há festivais de músicas que vendem ingressos por mais de R$ 1 mil.

Fazer música hoje em dia é fazer negócio e exige dedicação e profissionalismo para o trabalho caia no gosto popular e avance. Até que aquele hit favorito seja ouvido por alguém em qualquer que seja a plataforma de audição, há um processo demorado e articulado que podemos caracterizar como “bastidores da música”.

Para tentar compreender como funcionam e o que ocorre nesses bastidores, nosso repórter Ícaro Ambrósio bateu um papo com o Produtor Musical e Engenheiro de Som Cris Simões. Cris contou sobre o sistema técnico por traz das composições e ainda opinou sobre o mercado. Vejam só

Ícaro Ambrósio Pergunta para Cris Simões:

O que acontece nos bastidores da música?
Acontece muito mais do que as pessoas imaginam. Quando alguém ouve uma música no rádio ou assiste a um show na televisão, é difícil ter uma ideia do trabalho desde a pré-produção da música (concepção do arranjo) até o processo de masterização. Isso pode durar meses, muito trabalho e o envolvimento de muitos profissionais.

Cris Simões conta sua história, fala sobre o universo da música e sobre como é a vida nos estúdios de gravação (foto: arquivo pessoal/ Vimeo).
Cris Simões conta sua história, fala sobre o universo da música e sobre como é a vida nos estúdios de gravação (foto: arquivo pessoal/ Vimeo).

Quais são os passos para produzir uma música?
O processo todo começa na pré-produção. É ali onde definimos toda a estrutura da música, o tipo de arranjo a ser gravado, a tonalidade e o caminho a ser seguido. A segunda etapa seria a gravação em si, a captação dos instrumentos, podendo ser um por um ou todos tocando juntos. A terceira etapa é a de edição. Hoje no mundo digital existem dezenas de ferramentas para consertar uma boa performance que tem algum defeito para ser usada na mixagem. Essa etapa é crucial pra que o processo de mixagem seja bem sucedido. Esse momento é onde a mágica acontece. Os volumes de cada instrumento, as dinâmicas, a interação de tudo que acontece na musica deve ser bem definido e processado pra q chegue tudo em harmonia para o ouvinte. Esse processo e técnico, mas também muito artístico. A última etapa é a masterização. Ali a música é processada de acordo com a mídia final a ser utilizada: Vinil, CD, DVD, Web, Streaming, Rádio e etc. Nesse momento também é tomada decisões artísticas sobre equalização e compressão da musica como um todo. Seria o “verniz final” a ser aplicado.

Quantas pessoas são envolvidas para fabricar um produto?
São vários profissionais como, por exemplo: o Produtor Musical, o Engenheiro de Gravação, o assistente, o editor, o Engenheiro de Mixagem e o de Masterização. Na maioria das vezes um profissional acumula essas funções e diminui o número de pessoas que trabalha no processo.

Quanto dinheiro é gasto até que uma música chegue ao ponto final?
O dinheiro a ser gasto depende da qualidade dos profissionais e estúdio escolhidos. Não existe um padrão.

Quanto tempo leva para compor, produzir e concluir uma música?
A gente faz um cálculo de aproximadamente umas 20 horas gastas com todo o processo, por música, até sua conclusão. É bem variável, mas na média, esse é o tempo gasto.

O que é mais difícil no processo de criação de uma música?
Todos os processos têm suas complexidades e dificuldades. Às vezes a composição é mais complicada para ficar pronta e os arranjos e gravação são bem tranquilos de serem feitos. O contrário também acontece. Então é difícil prever. Todos tem sua importância no produto final.

Lidar com músicos famosos é difícil?
Na verdade não. Só é preciso ir com calma referente às mudanças porque como o artista já passou por varias gravações e muito bem sucedidas, eles podem estar acostumados a trabalhar de uma maneira já estabelecida. Então avaliar, seguir esse padrão ou introduzir um novo é o maior desafio para um Produtor ou Engenheiro de Som.
Recentemente gravei o guitarrista da banda inglesa de Hard Rock, Whitesnake, Joel Hoekstra, numa produção minha. Ele me mostrou o jeito com que estava acostumado a microfonar o amplificador de guitarra e eu apenas adaptei a técnica dele para a minha e foi muito bom. Ele adorou e tiramos um belo som.

Você já trabalhou com a Paula Fernandes, como ela é no estúdio?
Eu mixei o DVD da Paula Fernandes “Amanhecer” gravado em São Paulo. Ela acompanhou o final do processo de Mix. Foi super tranquila, muito simpática e fez alguns ajustes pontuais bem observados. Grande artista.

Um grupo mineiro que você trabalhou foi o Jota Quest, como foi lidar com os meninos?
Além de serem grandes amigos, trabalhei com eles nos três últimos discos, mixando-o e o co-produzindo. Ali nos sentimos em casa, tanto no estúdio deles quanto eles aqui no meu estúdio (Pacific). Temos uma comunicação muito bem definida e fácil de ser entendida. Para mim é sempre um prazer trabalhar com eles visto que são muito experientes e ótimos músicos. Fazem meu trabalho ficar mais fácil.

Qual é especificamente o papel do Engenheiro de Som?
Ele e o responsável técnico da produção. Escolhe os equipamentos a serem utilizados e os opera. Além disso, ele pode ser o profissional a fazer a mixagem.

É possível ter uma previsão sobre a aceitação de uma música antes mesmo de esta música ser ouvida pelo público?
O produtor juntamente com o artista e a gravadora são os responsáveis a definir a música a ser trabalhada em rádio e Web. Com toda a experiência eles avaliam o mercado, fazem algumas audições com público alvo e escolhem a canção. Saber se ela realmente vai fazer sucesso ainda não e possível. São apostas, mas com um bom respaldo de pesquisa de mercado.

Qual é o estilo musical mais gostoso de trabalhar?
Eu sou um Produtor/Engenheiro especializado em Pop e Rock. São os que mais me sinto a vontade de trabalhar. Mas trabalho também com Reggae, Eletrônica, Sertanejo e Jazz. Às vezes como Produtor e às vezes como Engenheiro de Mixagem.

Qual é o estilo musical que você escuta em casa, no carro, etc…?
Eu escuto música “trabalhando”. Eu estou sempre escutando arranjo, mixagem e tirando ideias para meus próximos trabalhos. Quando estou relaxando sou bem eclético, mas o Pop e o Rock estão na minha veia.

Hoje o Brasil está rendido ao sertanejo universitário. Esse mecanismo comercial do quê toca e do quê não toca é impulsionado pelos produtores? São os produtores quem investem e decidem o que o publico escuta? De quem é essa responsabilidade?
Isso são tendências que o mercado vai tomando de acordo com novos artistas que aparecem. Mas é cíclico. Já foi o Axé, o Rock nacional, o Forró. Ou seja, os estilos sempre vão e voltam de acordo com a época. Acredito que haja espaço para todos.

Ícaro Ambrósio
Ícaro Ambrósio é jornalista e editor-chefe do site O Contorno de BH.

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