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Mamutte arrisca carreira solo com primeiro álbum autoral

A capa do encarte do disco é uma pintura do artista Gilson Rodrigues e as obras de arte da instalação que ilustra as páginas, são de Sonia Gomes, Tolentino Ferras, Mamutte e Moisés Sena (foto: divulgação).
A capa do disco é uma pintura do artista Gilson Rodrigues e as obras de arte são de Sonia Gomes, Tolentino Ferras, Mamutte e Moisés Sena (foto: divulgação).

Nove canções formam o álbum “Epidérmico”, a mais nova mistura musical de Mamutte. Com o slogan “o mais profundo é a pele” (Paul Valéry), o artista desponta seu primeiro trabalho solo no disputado e saturado mercado da música autoral.

Neste trabalho, Mamutte vai muito além das primeiras camadas da pele, mas aprofunda-se em questões existenciais e sociais, um turbilhão de refrências e emoções. “Epidérmico é um mosaico de cores e estéticas, na definição mais literal que se poderia ter de um mosaico: seus pedaços, suas partes, são diferentes umas das outras, mas reunidas formam um todo muito conciso, coeso, uniforme”, comenta o produtor musical do álbum, Maurício Ribeiro.

As referências da música pop prevalecem e o diálogo com o rock é também muito claro. Baladas pop convivem com canções doces e etéreas que, por sua vez, se alternam com a força de guitarras e baterias que remetem ao rock dos anos 80. No trabalho de produção buscou-se uma certa profundidade nos arranjos, com o uso de instrumentos como o violoncelo e o trombone, menos simbólicos desta linguagem pop. A mixagem do disco ousou em timbres, efeitos e espacialização da música, o que colaborou para unificar a trajetória musical durante o disco.

“Para mim são canções que trazem um teor emotivo, falam das nuances de relações afetivas e suas singularidades, das experiências do corpo, da dança, das imagens poéticas que se apresentam em algumas letras, da iminência líquida das relações. Acho que eu precisava mandar meu recado, produzindo um CD com tantas belezas, num contexto nacional tão degradante, violento e horroroso. Penso que o disco é essa costura de assuntos numa conversa só, tipo um namoro, com agressividade e libido”, conta Mamutte.

O lançamento deste trabalho será no dia 10 de novembro, às 21h, no Teatro Marília, localizado na Região Hospitalar. Os ingressos custam R$ 12 a meia entrada, R$ 24 o normal e podem ser adquiridos na entrada do evento. Nosso repórter  Ícaro Ambrósio bateu um papo com ele. Veja abaixo como foi!

Ícaro Ambrósio Pergunta para Mamutte:

Sua inspiração para Epidérmico veio de onde?
Para mim são canções que trazem um teor emotivo, falam de questões existenciais, das nuances de relações afetivas e suas singularidades, das experiências do corpo. Abro o disco com a canção que lançamos em videoclipe, antes do álbum, ela é meio hermética de tantos signos que dizem respeito a minha percepção biomítica, das coisas que me afetam e que de alguma forma reverberam nas criações artísticas que venho elaborando

Do que trata o disco?
Este disco é uma reunião das minhas primeiras composições, mescladas a outras mais recentes. Ele é um apanhado da minha trajetória que se iniciou em 2007 com minha primeira banda “Os Camarões”, apresenta essas canções que já toco nos shows, mas que ainda não haviam sido gravadas. Também há três canções inéditas e inclusive uma delas em parceira com o meu contemporâneo Jeferson Gouveia, cancioneiro de BH que assim como eu adora baladas românticas, mas nesse encontro fizemos algo diferente do que costumamos fazer, um rock experimental com percussões de panelas e patangome (e que tem a participação do Bruno Tonelli tocando Sitar ao final), uma das minhas últimas composições e acredito que aponta pra um novo caminho que trabalho pode rumar.

Cada fragmento que compõe este trabalho retrata a generosidade do ser humano Mamutte (foto: Clarice Steinmüller).
Cada fragmento que compõe este trabalho retrata a generosidade do ser humano Mamutte (foto: Clarice Steinmüller).

Qual a relação da frase “o mais profundo é a pele”, de Paul Valéry, com o seu trabalho?
Esse título “Epidérmico” foi um comentário de um amigo meu, pra tentar definir os meus elãs. Achei ótimo e super potente enquanto título que poderia tentar traduzir um pouco da poética do meu trabalho. E ainda sendo um dado contrario à associação paquidérmica que meu nome traz. Junto com a brincadeira poética da palavra Epidérmico, me veio também essa frase de Valery, que adotei como epigrafe no encarte do cd.

Epidérmico é um disco que aparentemente mistura de tudo. Do rock ao pop, dos anos 80 à atualidade, do violoncelo à guitarra. Por que tanta mistura?
Gosto muito do conceito de “Síntese Disjuntiva”, do Deleuze, que grosso modo é essa aproximação de elementos ordinariamente opostos, ou que não são afins nos modelos habituais. Aproximar referências distantes ou relaciona-las em uma composição é muito prazeroso e interessante, ao meu ver. Eu escuto muita coisa, desde música popular e regional ao pop e rock latino e word music, acho que pode ser efeito desse rizoma de escutas (rsss).

No meio dessa mistura existe um ponto referencial? Alguma coisa que é única ou semelhante em todas as canções?
Durante todo o álbum, as canções tem uma base de bateria baixo guitarra e violão e recebem o colorido do piano, do violoncelo e dos trombones, de acordo com o clima.”Poetize” talvez seja a “diferentona” (rsss), que foi concebida para ter uma base de zabumba e que virou uma coisa quase dub, bem  caminhando pra uma pegada eletronica bem discreta, sem deixar a raiz do instrumento base.

Nove faixas foram suficientes para transcrever o seu trabalho? O disco fechou exatamente como você queria ou algo teve que ficar de fora?
Eu queria fazer um CD com 7 ou 9 faixas. E aí elenquei as canções a partir desse objervo. Claro que ficaram várias canções de fora! Mas inclusive quis dessa forma, guardando algumas da safra primeira de canções, até mesmo me permitindo gravar uma canção não-autoral, dando uma pala da minha verve de compositor que também é interprete.

O disco é inteiramente autoral e pelo visto você já tem uma longa experiência no cenário da música independente. Como é para você arriscar neste mercado acirrado e, as vezes, desvalorizado?
Essa é uma oportunidade muito importante. É agora que eu vou começar a formar meu publico, saber quem são as pessoas que curtem meu trabalho, quais as expectativas e demandas que vão emergir a partir desse novo álbum. Um CD não dá conta de apresentar o espectro que um artista e quanto mais um EP, como foi na minha estreia fonográfica. O Quase-disco e o Epidérmico dão sugestões de caminhos por onde eu ainda vou configurar meu som. Já estou ansioso pro próximo, espero que haja mais oportunidade e espaço para os artistas emergentes, todo dia o sol nasce lindo na serra do curral, podemos todos nos bronzear a luz dele!

Mamutte além de músico é também artista plástico e performer. Seu personagem profissional é tão misturado quanto o álbum Epbém nico. Misturas fazem parte da sua vida? Qual outra mistura você aprecia?
Eu não me entendo como um personagem. Gosto de pensar no artista como a Marina Abramovic  pensa a ação da Performance, diferente do Teatro que encena, por exemplo uma facada simulando o ato de perfurar o corpo, na performance faca é faca e se furar furou deveras. O meu trabalho em artes visuais tem uma pesquisa que tange o corpo, a sexualidade e o erotismo, esse sentido Pele e suas camadas são bem coerentes nessa correspondência das artes. Talvez a mistura seja por excelência, a diferença das abordagens. Talvez eu seja mais feroz em imagem do que musicalmente. Percebo ser mais doce em música. Mas tenho ficado feliz por ver o som se encontrando com os trabalhos de performance mais recentes, está começando a rolar uma intermidialidade em minhas experiências estéticas, que tem me instigado bastante. Sobre os temas, não me preocupo muito, gosto das variações e de repertórios amplos.

Mamutte e seu violão, parceiros de trabalho inseparáveis (foto: Lorena Teixeira).
Mamutte e seu violão, parceiros de trabalho inseparáveis (foto: Lorena Teixeira).

Você já participou de diversos eventos, festivais e até ganhou prêmios no Brasil. É claro que presumimos que sua experiência em lidar com o público é grande. O que é mais difícil, lidar com o público ou se trancar num estúdio para trabalhar?
Na verdade o que é mais difícil pra mim, é ter que fazer tudo o que ideologicamente uma equipe de profissionais deveriam fazer numa produção. Inclusive gerar renda em outra atividade laboral para bancar o próprio trabalho autoral, por exemplo. A precariedade de oportunidades profissionais em arte é tão grande, que acabam sobrando para o próprio artista fazer. É muita coisa e ainda tem que estar forte, saudável, bem humorado, bonito, bem vestido, publicado nas redes (o tempo todo) e emocionalmente equilibradissimo, pronto pra luz da ribalta. Difícil lidar é com essas coisas, o resto é só delícia e puro gozo!

Quem é aquele artista que você sonha em ter no seu próximo álbum?
Enquanto estou vivendo e tentando trabalhar em Belo Horizonte, gostaria muito de trocar com os grandes profissionais que aqui estão. Tenho muita vontade de trabalhar com John Ulhoa e Chico Neves, dois grandes produtores daqui da área!

Quem é o Felipe Saldanha e quando ele virou o Mamutte?
 Não há corte algum entre a pessoa que habita esses dois signos, só o timbre da voz dos familiares que me chamam por Felipe.

Qual é o seu sonho profissional?
Que as pessoas conheçam e se emocionem com o que está sendo iniciado agora e dessa forma que eu possa ir para além das montanhas, levar minha música (sem ter que me desdobrar em vários para conseguir fazer minha arte,que haja espaço e condições de trabalho).

Ouça e assista a Epidérmico!

Ícaro Ambrósio
Ícaro Ambrósio é jornalista e editor-chefe do site O Contorno de BH.

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