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10 dias de uma tragédia

Há 10 dias atrás, Brumadinho, uma pacata, agradável e belíssima cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, entrou para a história mundial por um motivo nada desejável. No dia 25 de janeiro de 2018, às 12h28, rompeu a Barragem do Feijão, propriedade da Vale, e essa foi a maior catástrofe ambiental que o mundo vera até aqui.

A lama de rejeitos saiu enfurecida e engoliu a vegetação local, a sede da Vale na cidade, o córrego do Feijão e seguiu pelo rio Paraopeba ameaçando devastar o museu de Inhotim e a cidade de Brumadinho. Felizmente essa lama acabou passando ao largo dessas duas cidades e o impacto foi menor do que o previsto. Mas a tranquilidade foi passageira e a notícia de que uma terceira barragem poderia romper volta a atormentar a população. Isso porque o complexo da Mina do Feijão é formado por três barragens, sendo que duas já haviam rompido. Não sabe-se se sorte, milagre ou sensatez, mas essa terceira não foi abaixo para a felicidade de todos nós.

Apesar de não ter tamanha proporção, ainda sim essa lama causou um dano irreversível e que será trágico por anos. A toxicidade dos rejeitos de mineiro poluíram a água dos mananciais que cercam a bacia do Rio Paraopeba tornando-a impura. A ameaça poderia envolver, inclusive, o reservatório Várzea das Flores que abastece Belo Horizonte e região, além de ser um problema para grandes cidades como Para de Minas, São José do Paraopeba e Três Rios. O rumo é a represa de Três Marias, um importante espaço de lazer que também abriga uma Usina Hidrelétrica. Aonde isso vai parar? Só Deus sabe.

E como não bastasse a tragédia anunciada para nossa riqueza natural, ainda há as vítimas. 507 até o momento, para ser exato. Entre mortos, resgatados e desaparecidos, aquela lama fixou a dor de centenas de famílias que perderam alguém. No sétimo dia, o Corpo de Bombeiros prestou uma homenagem sobrevoando o local e o cobrindo com pétalas de rosas – um gesto de carinho e respeito a tantas pessoas soterradas que jamais serão encontradas.

Tropas israelenses colaboraram com as buscas.


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🔔 Após quatro dias atuando no socorro as vítimas da tragédia da #BarragemDoFeijão, em #Brumadinho, as tropas israelenses encerram sua participação. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ A decisão de deixar a operação de resgate foi tomada em conjunto pelas autoridades brasileiras e o comandante israelense, e destacou que o trabalho da delegação foi elogiado. Veja a nota da embaixada do país: “Em coordenação com as autoridades no Brasil e com o comandante da operação de resgate no Brasil, foi decidido que a missão da delegação israelense chegou ao seu fim com sucesso nesta etapa da operação de resgate. Os comandantes brasileiros elogiaram a delegação israelense pela grande e importante contribuição profissional para a operação de resgate. A delegação israelense transferirá a responsabilidade de maneira ordenada para a equipe de resgate brasileira e retornará a Israel”. A ajuda de Israel no desastre causado pelo rompimento da barragem da Vale foi oferecida pelo premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, ao presidente Jair Bolsonaro. Além da tropa, o exército também trouxe 16 toneladas de equipamentos para ajudar as autoridades brasileiras nas buscas.

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Tivemos a ajuda até das forças especiais de Israel para continuar as buscas e nada de boas novidades. Animais foram sacrificados. Pessoas ficaram desabrigadas. Vídeos começaram a aparecer e a Vale prometeu deteriorar todas as suas outras barragens que mantém o mesmo tipo de estrutura e aproveitar o barro para construir tijolos.

Mas nada poderia tranquilizar ou aquietar a cabeça perturbada de quem assistiu tudo isso. Nem mesmo as palavras e a energia do tenente do Corpo de Bombeiros, Pedro Aihara, porta voz da Instituição para atualizar a imprensa quanto a tragédia. Ao menos Pedro nos passou força e contribuiu para ao menos perseverança existisse.

Mesmo com as palavras de Pedro, começaram a surgir depoimentos e histórias de pessoas que estiveram lá, sobreviveram e podem dizer para todo mundo que nasceram outra vez. “Não sei por quantos metros fui arrastado, eu desci como se fosse uma bola. Mas pelas mãos de Deus eu fui parar em um lugar seco. A minha perna ficou soterrada com rejeito seco, mas eu cavei e esperei por socorro. Pedi a Deus para que eu saísse vivo”, conta Lieuzo Luiz dos Santos, trabalhado que relatou ao site G1 como escapou da morte.

Lieuzo ainda contou em reportagem à Rede Globo o terror de ter assistido, ao lado de outros trabalhadores, aos primeiros momentos pós rompimento. “Nós achamos que era vento, só depois nos demos conta do que estava acontecendo. Vimos a terra explodir e fomos para baixo. Pedi a Deus para não deixar a lama passar por mim”, conta.

Mas a lama passou, por Lieuzo e por Minas Gerais. Aliás, essa lama matou peixes e levou lamento à uma tribo indígena que vive às margens do Rio Paraopeba. “Pescaria acabou agora, enquanto sujeira estiver aqui não tem como pegar peixe. Os peixes que tinha, pelo menos de Brumadinho para cá, acabou, não tem mais. As piabinhas estão todas mortas”. lamenta Gervásio Alves de Souza, de 93 anos, índio pataxó da tribo Hã-hã-hãe em relato ao jornal Estado de Minas.

Essa tribo instalara há pouco mais de dois anos na região e vivia principalmente da pesca. Agora, com os peixes morrendo e com a água suja, sua comunidade é incerta.  “O povo pataxó surgiu de uma gota de água que caiu na terra, a nossa relação com a água é muito forte. O rio morto nos causa lamento”, afirma Célia Peixoto, vice-cacique da tribo ao Jornal Estado de Minas.

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Em Belo Horizonte, o Memorial Vale das Minas e do Metal, mostrou o luto da empresa causadora de tudo isso. A Vale anunciou que irá indenizar em R$ 100 mil cada família afetada pela tragédia. Afinal, é vida que segue tal como a lama pelo Rio Paraopeba.

Ícaro Ambrósio
Ícaro Ambrósio é jornalista e editor-chefe do site O Contorno de BH.

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