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Médico defende que o futuro da medicina está nos robôs

O robô durante um procedimento (foto: Vinícius Nunes/divulgação).
O robô durante um procedimento no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte (foto: Vinícius Nunes/divulgação).

Passados pouco mais de uma década desde a chegada do primeiro robô-cirurgião, em 2008, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o Brasil se tornou o país que mais realiza cirurgias robóticas na América Latina. De acordo com a pesquisa da Intuitive Surgical – empresa que produz os robôs-cirurgiões -, em cinco anos, houve um aumento de 500% na procura por cirurgias robóticas no país.

O estudo ainda apontou Minas Gerais como o terceiro estado com maior demanda. Por mês, são realizadas mais de 100 operações só em Belo Horizonte. Entre os procedimentos mais procurados estão a cirurgia de próstata, bariátrica e hérnia da parede abdominal.

Entre os mais favorecidos pelos robôs-cirurgiões estão os pacientes com hérnia da parede abdominal. Por muito tempo, as cirurgias foram realizadas através da laparotomia, ou seja, o cirurgião fazia um corte em toda a extensão do abdome, realocava o órgão que havia sido deslocado e implantava uma tela para proteger a parede abdominal. Esse processo é invasivo e possibilita o surgimento de complicações durante o pós-operatório.

Todas essas novidades são vistas pela comunidade médica como o “futuro da medicina”. De acordo com o Dr.  Henrique Eloy, gastroenterologista, especialista em cirurgia e endoscopia bariátrica, as operações realizadas pelos robôs-cirurgiões proporcionam ao paciente recuperação mais rápida e a cada vez mais adentrarão nos hospitais e se tornarão acessíveis aos pacientes. Mesmo que demore um pouco.

Tiramos alguns dúvidas a respeito do procedimento com Dr. Henrique Eloy. Veja abaixo uma entrevista na qual ele esclarece como acontecem as cirurgias robóticas, seus benefícios e como os planos de saúde estão lidando com a implantação do método no mercado.

Ícaro Ambrósio Pergunta para Dr. Henrique Eloy

Foto: arquivo pessoal.
Foto: arquivo pessoal.

Você acredita que os robôs são o futuro da medicina?
Não existe nenhuma dúvida sobre isso. Acredita-se inclusive que em torno de 20 anos toda operação realizada no corpo humano será feita por um robô. Por mais superficial que seja, ela será realizada pela via robótica. Ou seja, através de um cirurgião comandando os braços do robô.

O Brasil é o país da América Latina que mais realiza esse tipo de cirurgia. Essa é uma conquista grandiosa ou ainda estamos atrás na corrida pelo avanço da medicina?
É verdade! Estamos completando cerca de 40 mil operações via robótica no Brasil. Em Minas Gerais são cerca de 1.600 procedimentos. São cerca de 70 robôs instalados no país. Em Belo Horizonte já são 4. Parecem ser números grandiosos, mas são pouco expressivos frente a população brasileira. Estamos engatinhando nesse procedimento. O robô ainda é acessível à população com grande poder aquisitivo e até alcançarmos toda a população brasileira ainda levará muito tempo.

Quais órgãos ou regiões do corpo podem ser tratados a partir de uma cirurgia robótica?
No momento, a cirurgia robótica é grande benefício para locais de difícil acesso no corpo. As principais regiões do corpo que estão se beneficiando com a robótica são o tórax, o abdômen e pélvica, que diz respeito aos procedimentos urológicos e ginecológicos.

Quais os benefícios dessa técnica?
Para começar, a cirurgia robótica permite uma visão muito mais nítida e ampliada do que a visão humana. Isso porque é possível ampliar o campo de visão em até vinte vezes. As pinças dos robôs, comandadas pelo cirurgião, possibilitam uma amplitude de movimentos da mão do cirurgião e ainda tem uma firmeza maior. Uma das grandes vantagens da robótica é filtrar o tremor da mão humana. Isso faz com que os pontos cirúrgicos sejam feitos com mais precisão. Desta forma, as complicações pós-operatórias – como hemorragias, fistulas, infecções – diminuem a frequência. Contudo, o pós-operatório é mais rápido e menos doloroso.

Para obter o certificado de cirurgião robótico, o que é necessário?
A certificação ainda é feita pelo fabricante dos robôs. Para isso é necessário um treinamento bastante rigoroso. No momento, essa certificação é adquirida apenas na Colômbia e Estados Unidos, porque são os Centros autorizados pelos fabricantes dos robôs para darem a certificação. Porém, existem projetos no Ministério da Saúde e em colégios de cirurgia para que a certificação seja feita também no Brasil.

Você acredita que o futuro das bariátricas está na robótica?
A partir dos benefícios que já esclareci, não tenho dúvida nenhuma de que a o futuro da bariátrica está no robô. Bem como de toda medicina!

Como fica a qualidade de vida do paciente após uma bariátrica por robótica?
Graças ao sucesso no pós operatório, a qualidade da saúde melhora muito. O paciente pode se mobilizar mais rápido, são menos complicações no organismo, sangramentos são menores e a intensidade da dor é menor.

A cirurgia robótica está nos catálogos dos planos de saúde?
A cirurgia robótica está começando a se difundir pelo Brasil. Por isso, os planos de saúde oferecem a seguinte possibilidade: o paciente recebe uma guia para fazer a cirurgia como se fosse por vídeo normal e as taxas relacionas ao uso do robô e aos instrumentos do robô são restritas aos pacientes. Por isso, o método é restrito aos pacientes com maior poder aquisitivo. Porém já existem negociações para que os planos de saúde também cubram as taxas relacionadas a robótica.

Como a comunidade médica tem reagido as dificuldades exigidas pelos planos de saúde para a realização de bariátricas?
Está havendo um movimento por meio dos planos de saúde para que haja uma redução do número de cirurgias bariátricas no Brasil. É uma cirurgia que realmente é cara, mas também é frequente. Mas é bom lembrar que os casos operados são aqueles que existem indicações restritas e divulgadas pela Agência Nacional de Saúde (ANS). O que acontece é que a obesidade aumentou sua prevalência e os planos de saúde estão tendo dificuldade de arcar com os custos do aumento das bariátricas no Brasil. Por isso está tendo um movimento para restringir essas operações por conta do valor alto delas. Essas tentativas podem ser prejudiciais à saúde do paciente porque, caso ele tenha indicação absoluta para a bariátrica, ele deve ser operado o mais rápido possível antes que as complicações da doença e também do risco cirúrgico aumentem. Não há dúvida de que a comunidade médica está de olho nos procedimentos dos planos de saúde. Não podemos deixar de forma alguma que a questão financeira fique acima da saúde dos pacientes.

Ícaro Ambrósio
Ícaro Ambrósio é jornalista e editor-chefe do site O Contorno de BH.

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